Quarta-feira, 25 de março de 2026, pode ser o dia de uma forte reversão no mercado de petróleo. Os contratos futuros do West Texas Intermediate (WTI) caíram mais de 5%, ficando abaixo de US$ 87 por barril, após relatos de avanços diplomáticos entre os Estados Unidos e o Irã. Mas, por trás dessa queda rápida, há um cenário complexo: o mercado está dividido entre as esperanças de desescalada e as tensões militares em andamento, entre o aumento dos estoques nos EUA e as reais interrupções de oferta através do Estreito de Ormuz.
Situação atual: o prêmio geopolítico está se esvaindo
Na segunda-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou o adiamento por cinco dias de ataques contra a infraestrutura energética iraniana, classificando as recentes negociações com o Irã como "muito boas e produtivas". Na terça-feira, surgiram relatos de que o governo Trump apresentou a Teerã um plano de paz de 15 pontos com o objetivo de encerrar o conflito no Oriente Médio.
O mercado reagiu imediatamente: na segunda-feira, o Brent caiu abaixo de US$ 100 por barril pela primeira vez desde o início da fase ativa do conflito, enquanto o WTI recuou mais de 5% em poucas horas. Os traders passaram a retirar rapidamente o prêmio geopolítico dos preços.
Mas as manchetes otimistas escondem uma realidade mais complexa. Autoridades iranianas negaram qualquer avanço formal, embora tenham reconhecido que canais indiretos de comunicação permanecem ativos. Teerã também sinalizou desconfiança em relação à disposição de Trump de alcançar uma solução pacífica.
A tensão militar persiste: Israel continua realizando ataques, os EUA estão enviando tropas adicionais para a região, e o Irã lançou um novo ataque com foguetes contra Israel. Países do Golfo relatam repetidas interceptações de drones e mísseis.
Fatores-chave: entre realidade e expectativas
O Irã informou ao Conselho de Segurança da ONU e à Organização Marítima Internacional (IMO) que embarcações "não hostis" podem transitar pelo Estreito de Ormuz, desde que coordenadas com as autoridades iranianas. Na prática, o tráfego permanece em níveis historicamente baixos: nas últimas semanas, foram registados pelo menos 20 incidentes envolvendo petroleiros e navios de guerra.
A Arábia Saudita aumentou as exportações de petróleo pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho, para quase 4 milhões de barris por dia — bem acima dos níveis pré-conflito — numa tentativa de contornar o estreito bloqueado.
Nesse contexto geopolítico, os dados de estoques dos EUA acrescentam pressão adicional. O American Petroleum Institute (API) informou, na noite de terça-feira, que os estoques de petróleo bruto aumentaram em 2,3 milhões de barris na semana encerrada em 20 de março, contrariando a expectativa de queda de 1,3 milhão de barris. Foi a terceira semana consecutiva de alta nos estoques.
Segundo a EIA, a produção dos EUA continua em queda (pela quarta semana consecutiva), mas permanece elevada, em 13,668 milhões de barris por dia. Os estoques em Cushing, principal hub do WTI, aumentaram em 4 milhões de barris.
Hoje (14h30 GMT), será divulgado o relatório oficial semanal de petróleo da EIA. A confirmação de aumento nos estoques tende a intensificar a pressão de baixa sobre os preços. Qualquer surpresa em relação às previsões deverá provocar maior volatilidade.
Previsões e cenários
As principais instituições financeiras elevaram significativamente suas previsões para o preço do petróleo em meio ao conflito, mas alertam que a volatilidade persistirá.
Os preços podem atingir US$ 100 se as interrupções durarem de 4 a 6 semanasUS$ 100 (2º trimestre), US$ 90 (3º trimestre), US$ 80 (4º trimestre)US$ 80 (2º trimestre), US$ 76 (3º trimestre)
| Bank / think tank | Brent 2026 (US$ por barrel) | WTI 2026 (US$ por barrel) | Previsão básica |
| Goldman Sachs | 85 | 79 | Os preços podem subir para US$ 110 entre março e abril |
| Morgan Stanley | ~80 | — | Analistas esperam ganhos sustentados acima de US$ 80 |
| Standard Chartered | 85,5 | — | US$ 78 (1º trimestre), US$ 98 (2º trimestre) |
| Barclays | 85 | — | |
| Macquarie | — | — | Os preços podem ultrapassar US$ 150 em caso de bloqueio prolongado |
| J.P. Morgan | 72 | — | |
| Bank of America | 77,5 | — | |
| HSBC | 80 | 76 | Perspectiva moderada, com leve desaceleração em 2027 |
Cenário A (baixista): continuação da correção.
Esse cenário se concretiza caso o progresso diplomático seja confirmado e o tráfego normal pelo estreito seja retomado. Alvos: a quebra de US$ 86,60 (mínima de hoje) abriria caminho para a mínima semanal em US$ 84,50 e, em seguida, para a zona de suporte entre US$ 83 (suporte local) e US$ 81,20 (EMA de 200 períodos no gráfico de 4 horas). O nível de US$ 80,00 passa a ser o próximo objetivo.
Cenário B (cenário base):Consolidação na faixa de US$ 84,50–92,50. Este é o cenário mais provável no curto prazo. O mercado deve oscilar entre as esperanças de paz e a realidade da continuidade dos conflitos. A zona entre US$ 84,50 e US$ 92,50 permanecerá como principal área de atenção.
Cenário C (alta): recuperação para US$ 100+ Esse cenário é possível caso as negociações fracassem e as hostilidades em grande escala sejam retomadas. Especialistas do mercado afirmam que, se as interrupções no Estreito de Ormuz durarem de 4 a 6 semanas, o WTI pode atingir US$ 100 e, em caso de um bloqueio total, pode ultrapassar US$ 150.
Conclusão
O WTI está em um ponto crítico, onde sinais diplomáticos colidem com a dura realidade geopolítica. Uma correção de curto prazo, impulsionada pela esperança de um acordo diplomático, levou os preços abaixo de 88,00, mas os riscos fundamentais permanecem elevados.
Zonas-chave: US$ 87,00–89,00 e a faixa mais ampla de US$ 84,50–92,50 serão o campo das movimentações decisivas nos próximos dias. Manter-se acima de US$ 90,00 preserva as chances de recuperação, enquanto uma quebra abaixo de US$ 84,00 abriria espaço para uma correção mais profunda.
A volatilidade deverá permanecer elevada em qualquer cenário. Os investidores devem acompanhar de perto os desenvolvimentos diplomáticos, o desfecho das negociações no Paquistão (onde, segundo relatos da mídia, a delegação dos EUA poderá ser liderada pelo vice-presidente J. D. Vance), os dados da EIA e — sobretudo — o estado real do tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz. O mercado de petróleo continua extremamente sensível a qualquer notícia que afete o equilíbrio entre oferta e demanda. Terão melhor desempenho aqueles que conseguirem separar o ruído de curto prazo das tendências de longo prazo — os défices estruturais e as interrupções no fornecimento persistem, mas qualquer desescalada efetiva pode provocar uma queda rápida dos preços.